7/23/2008

Do caso Flora ao caso Betty

Acabei de ler o texto da Betty, que a Vânia disponibilizou em seu
blog. E devo dizer que é o melhor texto que já li nos últimos, oque?,
10 meses?

A muito tempo não leio nada de profundo sobre obesidade. Estava
acompanhando o caso da Flora. Mas a Flora é muito molerona, a Betty
não, é inteligente e mais ativa. Então, é muito mais profundo o caso
da Betty que o da Flora.

Eu nunca fiz terapia. Ou melhor, nunca fui a um terapeuta. Mas lendo
sobre terapias eu descobri que faço terapia desde que entrei na
faculdade e comecei a conversar comigo. Sempre que um problema se
apresenta, um problema meu, eu penso sobre ele e acabo fazendo ótimas
descobertas sobre mim. Como por exemplo, eu já senti medo dos homens e
decidi pela obesidade para afastá-los. Mas isso já tem muito tempo, e
hoje sei que posso controlá-los e não ser vítima deles, se quiser. Só
falta agora fazer um curso de auto-defesa para não ser imobilizada em
termos mecânicos, puramente prático.

Outra fonte ótima de terapia, para mim, foi meu relacionamento com o
Lindinho. Sabe quando se mexe a água de um riachinho, e sobe toda a
poeira sujando a água!? É assim que eu vejo. Os três primeiros meses
de namoro, quando eu nem mesmo conhecia o Lindinho direito, eu reví
inúmeros medos e sentimentos que existiam sempre dentro de mim. E
sinto que me saí muito bem deles.

Eu me sinto orgulhosa internamente por ter um canal aberto comigo
mesma. Tive (fui obrigada) que rever minha intolerância a um milhão de
coisas, por ser confrontada com diferenças que eu não sabia que
existiam. Por exemplo, quando eu era criança, eu achava que o mundo
era católico. (um exemplo bobo, somente ilustrativo)

Bom, esses parágrafos são para dizer que o texto da Betty é ótimo e
revelador. Mas o ponto que mais me surpreendeu é aquele em que o
terapeuta diz que a maioria dos pacientes com desordem alimentar têm
uma espécie de vazio. E eu, internamente, me perguntei porquê.

Afinal, eu tenho um vazio. Quem não tem!? Eu tenho e fica bem claro
quando tenho que estudar algo, ou quando não tenho o que fazer. Mas
ele também existe em outros momentos.

Quando tenho que estudar uma coisa que eu não sei, e que está difícil
de entender, ou seja, quando a coisa não entra na cabeça, eu tenho um
vazio (na cabeça, que deveria ser preenchido por matéria) e tento
preenchê-lo com comida.

Ou quando não tenho o que fazer, me dá vazio de existência pontual, do
tipo "o que fazer agora? Não posso fazer nada, simplesmente, tenho que
no mínimo me divertir", e preencho esse vazio com comida.

Mas, porque comida. Porque comida dá a nítida sensação de corpo cheio.
Porque comida preenche. Porque é fato, é real, é palpável.

Mas há outro tipo de vazio. O vazio de existência mais geral, o vazio
de identidade no mundo. Algo como não ser nada no mundo, não fazer
diferença, não encher o mundo de forma alguma. E pelo que percebi,
esses últimos meses que tenho vivido desse tipo de vazio. Por isso que
eu não tenho me saído bem na alimentação.

Além da ansiedade com o mestrado. Da obrigação diária de ter que
produzir e ficar acordada até a meia noite, no mínimo, ainda há o meu
vazio de personalidade. Eu não sou mais eu, porque eu não tenho
vivido, porque tudo o que eu quero fazer eu deixo pra fazer depois do
mestrado.

Até acho que seja importante que eu me dedique 100% ao mestrado,
afinal, não tenho muitas horas livres. Mas é importante também que eu
seja eu. Que eu leia quando tenho vontade de ler, e que eu pense em
outras coisas, quando tenho vontade.

Aqui eu caio em um impasse técnico, prático. Quanto tempo é suficiente
para que eu me dedique a mim mesma? Quanto tempo é permitido eu não
produzir no mestrado!?

Sinto que essa postergacão da realização pessoal e individual do meu
eu me causa uma necessidade de compensação. Já que não dá tempo de
brincar de feltro, vamos comer. Já que não dá tempo de pensar em ler
um livro, vamos comer. Porque pra comer, sempre dá tempo.

Claro, tudo isso porque eu sou gorda. Porque se eu fosse tarada, ia
fazer sexo. Se eu fosse aventureira, ia empinar moto. Se eu fosse
viciada, ia cheirar alguma coisa.

Identificado o problema, vamos pensar em como resolvê-lo. Já há muito
tempo sinto vontade de tomar um tempo para mim, sem sentir culpa por
não estar fazendo mestrado. Porque normalmente quando não estou
produzindo, me sinto culpada.


PS: Esse texto eu escrevi terça feira passada. Antes de desabar minha conexão. Então ele estava como rascunho desde então.

3 comentários:

  1. Sabe que isso do vazio é um ponto comum para os seres humanos, quem não sente é porque nunca entrou em contato com o seu próprio "mundo interior".

    Necessidade de diversão, de preencher o tempo: Pascal.

    Mas sabe, a graduação e a pós exigem esse adiamento de si mesmo. Eu me rebelei no mestrado e me F.......... porque depois tive que fazer tudo num período de tempo inviável. Agora estou mais atenta. Tem períodos que acabo esquecendo que "existo" e apenas cumpro as tarefas constantes que me são cobradas. É horrível, tenho tido que aprender a não preencher o vazio desses momentos com comida.

    Nos últimos dias senti um vazio de "ocasião", estava em casa com as crianças e não podia pensar em mim porque eles me exigiam toda hora, quando vi, comi igual uma porca prenha.

    Depois, na festinha do meu sobrinho nem pensei em nada, só comi e depois me senti o lixo do mundo.

    Na segunda, para completar, estávamos arrumando as malas e comi pouco, mas só besteira.

    Na terça me frustrei, mas até que consegui controlar a alimentação, mas não completamente.

    Hoje, quarta, tive a comprovação do prejuízo: engordei 1,7 quilos. Para eliminar, duas semanas. 4 dias e preciso de duas semanas para me recuperar...

    Tudo bem,

    O importante é que fico feliz que você tenha aproveitado o texto, estou ensaiando o estudo dele porque o processo da Betty foi rápido demais (numa primeira aproximação) mas imagino o que deve ter sido para ela... os dias passam bem mais devagar né?

    Quanto a você, tem inteligência e força suficiente para lidar com o seu vazio e encontrar um modo de "existir" enquanto produz... quando conseguir, me conta!

    beijos

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  2. Oi, Gô! Impossível não concordar com vc. E ainda me divirto muito com o seu jeito de escrever. Bom humor é essencial nessa vida. Esse vazio a que vc se refere eu sinto desde há muito tempo. Aprendi a lidar com ele e, dia após dia, eu luto contra ele buscando sempre fazer algo útil pra mim ou pra alguém. Bjos!! Cris (www.vidaboaevidasaudavel.zip.net)

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  3. Gô,

    Acho que a grande maioria das pessoas vive o tal "vazio de existência". Me enquadro nesta tb.
    Quero mudar minha vida, sair dessa coisinha de "oreia", enfim, dar uma guinada.. e até isso acontecer ou até começar amover as coisas para concretizar minha idéia principal, vou viver com este vazio que muita vezes me faz atacar usn doces (MEU GRANDE PROBLEMA).
    Queria se viciada em malhação ou qualquer outra coisa que fizesse sair de casa para aplacar o tal vazio, mas infleizmente sou do tipo caseirona e qdo estou nestes momentos o melhor é ficar com minha idéias no sofá, lendo, escrevendo, sei lá.
    Aí fica um monte de coisas pra trás, inclusive os afezeres da casa...aí fico perdida, no limbo, até ter coragem de fazer algo no lado pratico e sair das idéias dos sonhos profissionais futuros(a médio prazo).
    Loucura? Sem dúvida!
    Amei o texto e tô sentindo falta dos seus comentários.
    Vou ler o postq ue vc citou.

    Beijos

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