1/10/2015

Escrevendo um livro

Essa postagem é para contar como foi escrever o livro e como foi a repercusão do livro na minha vida.

Em 2013 aceitei a proposta de ser co-autora de um livro técnico (em computação), técnico e de nicho, e escrevemos em inglês.. Não é um assunto tipo MS Office, que todo mundo precisa saber, é um assunto de nicho, novo e bem complicado.

O livro é para iniciante, tem 120 páginas totais e 95 páginas de conteúdo corrido.

Escrevi em dupla, e quando digo isso quero dizer que realmente trabalhamos a maior parte do tempo no hangout ao mesmo tempo, mexendo em editor colaborativo.

Quero registrar como foi o processo porque eu não sabia absolutamente nada sobre como escrever um livro com editora e acho que pode ser legal para quem está pensando nisso como uma opção de renda extra, ou só pra pagar de gatinho mesmo.

Primeiro ponto, trabalhar com editora é adicionar algemas. Você vai ter a algema do contrato, do estilo do texto, da formatação, da capa, da cor da capa, de basicamente todos os aspectos. Porém, essas algemas te dão a liberdade de não se preocupar com o preço do ISBN e focar no que tem que ser escrito (e não se a formação para comandos tem que ser em negrito ou em itálico).

Essa é a parte fácil de lidar. Pelo menos foi para mim. Você simplesmente deixa de pensar nisso e toca o barco.

O esquema da minha editora é mais ou menos assim:

  • você tem um prazo para cada capítulo
  • depois de escrever um capítulo, um revisor técnico (do assunto) revisa
    • esse revisor técnico é alguem que já sabe o assunto que você está ensinando, e está alí para garantir que você não está falando merda
  • depois do revisor técnico, você refaz o capitulo (os revisores costumam dar dicas ótimas)
  • depois de fechado o ciclo de revisão técnica, vem a revisão do editor, que revê o capitulo procurando merdas técnicas, linguísticas e de formatação.
    • o editor também passa o capitulo por um algoritmo para detecção de plágio
  • depois de terminar todos os capitulos, entra um outro editor (cada editor tem seu nome e eu já esqueci todos, é tudo muito confuso e chato) que vai exportar de word para pdf, além de dar uma última checada no ingles
  • O pdf é revisado capitulo a capitulo, erros são reportados
  • depois é gerado o pdf do livro, e mais uma rodada de revisão
Então o livro é mandado pra impressora, em 45 dias  está na Amazon vendendo.

Demoramos um ano para fazer um livro de 95 páginas. Porque nunca tinhamos feito um livro (eu e meu companheiro) e aprendemos muito ao longo do caminho, em termos de processo e técnicas, e o resultado foi ótimo.

O resultado financeiro foi um fiasco. Para um ano de trabalho pesado eu só ganhei até agora $900 novecentos doletas. Que dá o que? Uns dois mil reais? Para um ano de trampo eu acho pouco, quem trabalha no Mac Donalds tá tirando quando por mês? Uns 1200? Quanto é o salário mínimo? 700 reais? Para ser precisa, meu pagamento é 8% sobre o preço de venda do livro. Para um livro que custa $9,90 o ebook e $29 o paperback. E eu já estourei a margem de mil livros vendidos (que é um record, nesse nicho passou de 200 é best-seller =P)

Ou seja, mais ou menos, eu levei um ano para ganhar mais ou menos o salário de 2 meses. Eu ainda vou receber mais, por contrato, vou receber pelo resto da vida até que tenha um ser comprando o livro, mas o fato real é que esse livro técnico tem prazo de validade. Em no máximo 2 anos acho que ele estará fora da roda totalmente. Imagino um tempo de meia vida de 1 ano no máximo.

E aqui entra outro ponto importantíssimo. Durabilidade, obsolescência, e principalmente, o quando o conteúdo do livro é atual e realmente descreve a ferramenta.

Essa ferramenta tem atualização a cada 6 meses. Ou seja, a cada 6 meses temos uma pá de cal sobre o livro.

Isso é pra mostrar que ninguém fica rico com um livro técnico.  Então, se você pensava em ficar rico escrevendo livros, tenha em mente que sua produtividade deve ser enorme. Dentre os 50 livros que você escrever, talvez um esteja na lista dos mais vendidos da Folha de São Paulo, e então você consiga ficar rico, não milhonário. Quem fica milhonário é a editora, porque vc tem (pelo contrato padrãozão) direito a no máximo 16%. Claro que essa percentagem varia, mas não se jogue de cabeça porque vc pode se ferrar.

E claro, não acho que a percentagem do Stephen King ou da Marian Keyes seja só 16%, eles já são escritores famosos e podem barganhar melhor. Mas se você está ainda construindo seu nome, não espere muita coisa.

O lado extremamente positivo de escrever um livro é que todo mundo passa a te conhecer! Sim você fica famoso! Claro que, no meu caso, é ser famoso no meio de um monte de gente nerd, que trabalha junto de você, e não ser reconhecido no mercado. Mas o bom é que a sensação de que você vai conseguir arrumar um emprego se for demitida é ótima! Porque todo mundo acha que você é inteligente!

As pessoas mandam email dizendo que adoraram (ou não), dizendo que compraram o livro, dizendo que o capitulo X está bom, e o capitulo Y tá uma bosta, e que faltou falar de tal assunto que a pessoa acha super relevante mas que o resto da humanidade nem quer saber.

O lado humano de escrever um livro é muito legal!

Acredita que nosso livro foi traduzido pra coreano? Então! Não é super legal saber que um livro que você escreveu foi traduzido pra coreano? Eu acho!!!!!!!!! \o/

Até agora tem sido uma ótima forma de criar uma reputação profissional.

O livro foi publicado em junho de 2014, e eu só recebo relatório de royalties a cada 3 meses. Ou seja, no primeiro semestre eu já vendi os mil livros que a editora planejou para a vida útil do livro, então acho que meu livro foi um sucesso (apesar de não ter como comparar meus números, porque aparentemente tudo o que eu falei aqui é sigiloso e as pessoas são proibidas de falar)

Mas como meu blog é pseudominístico eu acho que não pega nada não.

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