Pesando três digitos

Devo estar pesando atualmente uns 105 quilos. Talvez menos, mas ainda assim mais de cem.

E quer saber? Eu me sinto melhor hoje do que me sentia quando pesava 93kg e comecei todo o meu processo de auto conhecimento e emagrecimento e engorda.

Eu me olho no espelho e me vejo bonita. E não é que eu me veja bonita ~apesar de~ estar gorda. Eu só me vejo bonita!

Claro, tem dia que eu não tenho forças nem pra sair da cama, quanto mais para me olhar no espelho e me sentir bonita. Mas isso é o normal e saudável. O trabalho e o capitalismo sugam nossas forças, isso sim.

Mas, apesar de me sentir bonita, de me sentir bem emocionalmente, tenho uma dor no calcanhar e uma asia que me fazem pensar: gorda.

Será que não há meios de limparmos totalmente a gordofobia da nossa cabeça? Será que nem mesmo a coincidência dessa asia estar acontecendo sempre no mesmo periódo do mês e só depois de parar com o anti-concepcional fazem eu deixar de culpar a ~gordura~?

Eu me sinto muito mal de cair no mesmo buraco gordofóbico. E mesmo sabendo que eu ando estressada e que é muito mais provável eu morrer de câncer do que eu morrer de pressão alta ou cardiopatia, tenho tido uma falta de ar e penso: ~gorda~.

Será que se eu emagrecer, de novo, eu vou me sentir bem, de novo?

No meio desses pensamentos me lembrei que, ~apesar de~ estar ótima com minha barriga, eu ~curti~ o periodo que passei magra. Claro, muito provavelmente foi a sensação de tapa na cara da sociedade e nada além disso. E apesar de olhar aquelas fotos e não me reconhecer realmente, a sensação que sempre me lembro é a de agora eu posso descançar, já cumpri minha obrigação com a sociedade.

Esquisito. Porque, eu não me achava exatamente bonita ~magra~, me acho bem mais bonita ~gorda~, e ainda assim acho que devo algo a um ser inanimado e tortuoso:  a sociedade.

Aí  eu penso, OK, vamos emagrecer então. E duas coisas me vêm ao pensamento:
1. contar calorias
2. porque você come?

Contar calorias é o fim da picada e não é a solução definitiva. RA tão pouco. Hoje em dia tudo é RA e eu definitivamente estou de saco cheio de ouvir RA. Quer dizer que eu nunca mais poder comer linguiça é BOM? Quem separa o que é bom do que é mal? Cadê o juiz e o juri?

Porque você come?
Oras, porque eu tenho fome é gostoso e eu quero. Quando eu não quero eu não como. E quando é ruim eu só como se for por uma questão de saudabilidade (por exemplo, amo abobrinha mas odeio berinjela, tenho opção de não comer berinjela?)

Eu também como por lazer e tristeza. E, qual é o problema disso? Ou você acha que eu não vou ter fome quando estou me triste?

Quer dizer que tudo bem eu tomar um comprimidinho da felicidade e não tudo bem eu comer brigadeiro?

Quer dizer que tudo bem eu sair correndo para liberar endorfina mas comer torta não pode?

Ou será que gorda não pode ficar triste? Ou será que, só se a pessoa for gorda que ela tem que preferir correr no lugar de tomar um sorvete quando se sente triste?

Pois bem, eu ainda não decidi se tenho forças para encarar um médico que vai me olhar e ser gordofóbico comigo, em vez de me ajudar a achar uma provável má formação cardíaca. Mas se eu tiver forças de ir, só vou  regular minha alimentação com um único objetivo, que é melhorar possíveis taxas ruins.

Afinal, eu me vejo gorda no espelho e só consigo pensar em quanta felicidade eu vivi até chegar onde cheguei. Estou vivendo o periodo mais feliz da minha existência até agora e isso me engordou e além disso, foram momentos ótimos!


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